Os pardais se foram!

Eles foram se multiplicando vez por vez e o seu número não diminuía. Enchiam o quintal e, em voos rasantes, não se intimidavam em desafiar qualquer barreira. Numa velocidade incrível, até parecia que se quebrariam contra a parede ou o piso, mas nada disto. Arremetiam-se para o alto e continuavam seus constantes voejos como que numa brincadeira interminável. E a cada tempo mais asas, mais cantos, mais pardais, mais trabalho. Eles iam e vinham, sempre em número crescido e aumentado.

Que houvera acontecido se antes não era assim? Algum ou outro pássaro, vez por outra, de repente, se punha ali a desferir o seu canto. Mas aquele bando, diária e semanalmente, em todos os seus constantes, insistentes e ingênuos movimentos era uma coisa nova e interrogável! E mais: não descumpriam o seu horário e não chegavam atrasados. Pareciam até aqueles bons funcionários, que no devido tempo e na hora certa batem o seu ponto. Lá estavam eles, logo cedo,  madrugando sob o lusco-fusco matutino!

O que acontecera? As interrogações continuavam até que se descobriu! As sementezinhas de mastruz, expostas e dependuradas naqueles seus pequenos arbustos eram o atrativo apetitoso, o enfeitiçante chamariz a atiçar as pequeninas aves. Mas a festa acabou e eles se foram: as plantinhas foram arrancadas!

O mundo também faz brotar e nascer as suas sementes, às vezes bem minúsculas, microscópicas e quase que imperceptíveis, atrativas aos olhos e  chamativas à carne e à mente, pondo-as em toda parte: dentro de sua casa, no seu e-mail, whatsApp, computador e nas suas próprias conversas, lembranças, reminiscências e amizades. E aí seu interesse carnal vai sendo despertado, um pouco hoje um pouco amanhã, até que você, em ato semelhante ao daqueles pássaros, se vê completamente dominado, atraído e enfeitiçado. Neste ponto o vício já se instalou e sua re moção vai ficando cada vez mais teimosa e difícil. Em alguns casos nascem comprometimentos tão amarrados e enraizados, que se toram dificílimos de ser arrancados.

Olhe agora para seu “quintal”, para os “canteiros” que você – digamos que até mesmo distraída e displicentemente –  tem adubado e regado e veja que há aves indesejáveis/desejáveis pousando e desfrutando da sua vida, roubando suas forças e minando os seus interesses espirituais, que em outros tempos foram tão abrasados e tão contagiantes!

Corta! Arranca o “mastruz” que os pardais vão embora. Não consinta qualquer atrativo ao pecado em ato paralelo ao seu culto a Deus, e, também, nada de trégua, brincadeira ou qualquer pensamento que lhe ponha sobre o pedestal  da  autoconfiança. Não queira  domesticar  leões ou brincar com escorpiões. Tomará alguém fogo no peito, sem que as suas vestes se incendeiem?

O domador de jiboia brincava com o animal frente ao público, num circo, e todos o aplaudiam. A cobra rodeava-se no seu pescoço, no seu tronco e todos batiam palmas, até que o ‘bicho’, instintivamente, começou a apertar o homem, que veio a morrer, esmagado, mesmo que sob o som das palmas do povo, que via o espetáculo, mas não avistava a morte, pois todos pensavam que era do show!

Assim, pois, irmão, nunca demonstre ou creia que você está bem, se sabe que sua vida já está capitulando-se, ainda que outrens lhe elogiem ou lhe exaltem!

Emmanoel Avelar Gomes

 

 

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