Mulher sem nome

Manuel e Lídia Ferreira
Discrição, silêncio, recato, sofrimento encoberto, solidão, são palavras que servem para descrever a mulher sem nome que se movimenta na sombra servindo de apoio ao marido a quem quase inteiramente substitui na presença e interacção familiar – mulher sem nome, ou “esposa de pastor”.
A posição da mulher na cultura hebraico-cristã é sem dúvida uma questão pouco discutida e quase incontestavelmente aceite, pouco presente nos estudos teológicos e no entanto, claramente contraditória do espírito e dos princípios da revelação bíblica.
Na sociedade das origens da história do Velho Testamento, a mulher tinha um papel de valor secundário na capacidade de decisão, era estimada quase que exclusivamente pelos seus atributos de fertilidade e maternidade, numa visão cultural utilitária da sua feminilidade como reprodutora, objecto de prazer e quando muito, de poder de influência.
Recordamos certamente as histórias de desgosto e desprezo sentido pelas inférteis Sara, Raquel, Ana Isabel e por aquela de quem também não conhecemos o nome, a esposa de Manoá, mãe de Sansão. O valor social era-lhes conferido pela maternidade e Deus, numa expressão de misericórdia, restaurou-as e por milagre deu-lhes o privilégio de serem mães influentes de filhos notáveis. Assim obtiveram o seu lugar na história.
A influência de outras mulheres como Rebeca, Miriam, Rute, Débora e Ester  que de uma ou de outra forma constituíram lições de fé e persistência não foi menos subtil – discretamente usaram armas de poder feminino para conseguir concretizar o seu sonho, desejo ou intento, para proveito próprio ou dos seus.
Essencialmente, a mulher bíblica é amante, esposa e mãe. Desempenha o seu papel na vida familiar, social, económica, política e religiosa do país, permanecendo todavia na dependência do seu marido ou pai. O capítulo 31 de Provérbios descreve a interacção familiar e social desse ideal de mulher. Encontramo-la na política, a exemplo das rainhas Betsabé, Jezabel, e Atalia;  na religião, como as profetisas  Miriam, Débora, e Hulda;  na defesa da Pátria, como Jael. Perante a lei, em algumas circunstâncias é considerada igual ao homem,  passível de penas idênticas. Na família, é digna  do mesmo respeito que o pai, por parte dos filhos.

No Novo Testamento, no episódio de Maria, a mãe de Jesus, confrontada pelo problema de uma gravidez sem ajuntamento e de José, convencido por Deus a ilibá-la de culpa assumindo o casamento;  e no caso da mulher “encontrada no próprio acto adulterando”  trazida a Jesus para ratificação do julgamento popular proposto pelos religiosos, constatamos a incongruência da cultura entre o conhecimento da Lei que lhe servia de base a sua aplicação prática. De facto, para que a lei fosse cumprida era necessário que ambos fossem apedrejados e a mulher não poderia ser “achada no próprio acto adulterando”, sozinha. Onde estava o companheiro de adultério?
No discurso de Jesus contra a hipocrisia religiosa esta incoerência é sublinhada pelas suas declarações quanto ao divórcio e quanto ao adultério, restaurando à mulher a dignidade roubada, e pala sua relação de respeito para com as mulheres que o seguiram e colaboraram no seu ministério, como pessoas integrais, não diminuídas pelo seu género sexual ou condição social.
É preciso não esquecer que o Cristianismo se expandiu no espaço cultural greco-romano e que para a forma de culto cristão foram trazidas também as práticas da sinagoga, onde qualquer criança ou até mesmo qualquer escravo podia ler publicamente as escrituras, contudo á mulher, mesmo que ela fosse a esposa do rabino principal, esse privilégio estava vedado.
Os escritos de Paulo, essencialmente, deixam-nos perceber a dualidade entre a doutrina ensinada quanto à mulher e aos seus papéis na família e no ministério e esses condicionamentos culturais.  Por um lado Paulo elogia e recomenda as mulheres que trabalharam com ele e por outro ordena que “elas estejam caladas na igreja”. O mesmo Paulo escreve aos Gálatas que “em Cristo não há macho nem fêmea”, no sentido de que ambos são igualmente caros para Deus, ambos são igualmente chamados para O servirem e ambos podem e devem atingir os mesmos alvos espirituais.
Nas páginas do Novo Testamento encontramos, paralelamente com a tradição judaica, um caminho melhor, uma revelação superior em que as mulheres são activamente envolvidas no ministério.
Ao longo da história encontramos opositores. Crisóstomo afirmou: “Eva ensinou uma vez e arruinou a todos”; e Calvino disse: “…posto que ela desviara o seu marido do mandato de Deus foi justo que ela fosse privada de toda a liberdade e colocada debaixo de jugo.” Contudo, afirmar que as mulheres estiveram ausentes das funções ministeriais ou que o seu papel foi nulo ao longo da história da Igreja, seria pura ignorância. Eusébio de Cesaréia dá-nos conta de muitos nomes de mártires, masculinos e femininos, que durante os primeiros séculos do Cristianismo deram a sua vida por causa da  fé activa que professavam. Marcela (325-410) é referida por Jerónimo como alguém que “aprendeu com grande facilidade tudo o que ele aprendeu com dificuldade. Ela fez do seu palácio em Roma um centro de pregação cristã.           E porque não referir que em Lisboa, nos tempos difíceis da segunda metade do século dezanove, Ellen Roughton, iniciou em sua casa as primeiras reuniões evangelísticas com portugueses?
Na história contemporânea destacam-se, entre outras, as figuras como as de Gladys Aylward,  Katherine Kulman, Daisy Osborn, que a este propósito escreveu “Deus confia numa mulher que é salva, tanto quanto confia num homem que é salvo, porque Ele acredita na Sua própria justiça que é a mesma no homem e na mulher. Só a religião, a tradição e a cultura fazem distinção entre as mulheres e os homens e lhes atribuem papeis diferentes no ministério. Deus não faz assim… O poder da Palavra de Deus não depende do sexo da voz que a anuncia”.

Mas, e todos os milhares de “esposas de pastor” que se encaixam na descrição da abertura?
Será a chamada para o ministério um privilégio predominantemente masculino?
O Dicionário de História Religiosa de Portugal, do Círculo de Leitores,  refere no tema  Mulher que “ Do ponto de vista religioso, o cristianismo concedeu ás mulheres um estatuto de igualdade com os homens, todos filhos de Deus. Mas aceitou as regras da sociedade patriarcal em que o poder pertence aos homens. Ao longo dos séculos os padres e teólogos medievais fazem doutrina e apresentam argumentos que, todos, podem resumir-se na prova da inferioridade das mulheres. Também é possível que a Igreja tenha retido do ambiente sociocultural envolvente as mitologias que associavam as mulheres à matéria, ao caos e ao mal. Além de inferiores, perigosas”

Se o ministério deve ser desenvolvido de forma individualista pelo pastor, então porque é que é requerido que seja “marido de uma mulher”? Alguns comentadores dizem a propósito deste texto que Paulo refere a  monogamia, outros a necessidade de ser casado por oposição a ser solteiro e outros ainda que não devem ser divorciados, isto é, terem casado apenas uma vez.
O que aqui queremos reflectir é: Se o pastor é casado, qual deverá ser o papel da sua esposa? Será possível viver o ministério separadamente do casamento? Será isso o melhor para a igreja? Não será mais eficaz o ministério partilhado? É claro que não estamos a falar aqui da profissão de pastor, mas do ministério de pastor. As profissões são extensões individuais que se desenvolvem paralelamente, como um domínio da vida. O ministério é completamente envolvente, reflecte – se em todos os domínios e é pouco provável que um pastor possa simultaneamente ter um casamento disfuncional e um ministério funcional.         
O modelo de relação marido mulher concebido por Deus a quando da sua criação era” far-lhe-ei uma adjutora que o compreenda” e “ serão os dois uma só carne” – O  modelo de unidade.
Como consequência da queda houve uma distorção de valor na relação e o modelo foi… “Ele te dominará” –  O modelo de domínio.
Na restauração com Jesus regressamos ao plano original  e ao  modelo inicial  – Uma só carne.
Para que aconteça este milagre de restauração é necessário que cada um integre o outro com tudo o que ele é, na sua totalidade como pessoa. Tem de ser uma integração consciente cujo processo se inicia com uma aceitação total do outro, despida de preconceitos e suposições, com todos os dons inatos  imputados por Deus nesse outro.
Esta aceitação não pode ser parcial, limitada a alguns âmbitos da vida, como o de esposa e de mãe, porque ser pessoa é mais do que ser esposa e mãe. Só assim o marido pastor é realmente completo e pode ser plenamente eficaz no exercício da sua masculinidade, do seu ministério, da sua liderança, como pessoa que é homem e que é pastor. Só assim a sua aceitação própria é conseguida, porque ninguém pode aceitar-se saudavelmente se ignorar uma parte de si.
A ideia de completar-se para se tornar um inclui a ideia da diferença. É aí que está o valor do casal. Deus não necessitaria de criar outro ser se um igual fosse suficiente. Aceitar-se significa também reconhecer e valorizar essas diferenças como mais valias. Quantos dons e capacidades estão enterrados na vida de tantas “mulheres de pastor”, encobertos pelos preconceitos de falsa submissão, pela necessidade de “manter-se no seu lugar” – que a religião e não a Bíblia lhes designou. E quais são os efeitos desta vivência? O ministério do pastor fica mais pobre, incompleto, pela falta de participação daquela que tem o poder de o integrar. A Igreja é roubada da benção do exercício dos dons e capacidades com que Deus dotou aquela mulher em especial.
A própria sente-se despersonalizada, de identidade perdida, desvalorizada, subestimada e … deprimida. E a família, para quem afinal vive, sofre. Sofre a ausência de equilíbrio num lar que apesar de tudo, é cristão. Diz-se que a depressão é a doença do século. E afecta em grande escala esta classe de mulheres. Resolvê-la e preveni-la passa sem dúvida por um exame consciente e sincero de cada situação individual, face aos valores bíblicos e por devolver-lhe a liberdade de Ser tudo aquilo que Deus tencionou para ela. De experimentar acreditar em si própria como filha e serva de Deus. Isto não significa que ela tem de fazer as mesmas coisas que o marido faz. Significa antes descobrir e dar livre curso a todo o  seu potencial, na família e no ministério e ser feliz. Deus deu a cada um diferentes dons e capacidades e tenciona que se completem mutuamente.
Que cada um, homem e mulher, reconheça, aceite o papel que Deus lhe atribuiu – em primeiro lugar na família – Esposa/esposo, Pai/mãe, Servo/serva; e depois no ministério e seja livre para o cumprir fielmente.   

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